quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vinicices: Nascimentos

Vinicices: Nascimentos: " Outro dia li um texto muito bonito, do meu tio Roberto, falando sobre a transformação de pai em avô. Ele me fez perceber algo que nos esc..."

terça-feira, 26 de julho de 2011

terça-feira, 5 de julho de 2011

Palavras desenhadas

 

O desenho pediu para virar palavra
Não disse qual
Só insitia a brancura do papel
Para que fosse preenchida por letras
A folha de desenho fez-se papel de carta
Carta para quem?
Carta de quem?
Num espaço onde o tempo que se sente
É diferente do relógio
Onde linhas bem traçadas desenham 
Um corpo possível
Contorno que muda constantemente
Mas que sempre insiste em arregalar os olhos
Testemunhando um espanto com a vida
O dizer tantas vezes torna-se sem sentido
Pois o que é sentido é sempre muito
Um render-se constante diante do que
Não se sabe como lidar
No papel que já fala tanto
O desenho pede para virar palavra
Escrita silenciosa nascida do eco
De se estar em companhia.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Abraços

É que o dia hoje foi...




...para lembrar...

...para esquercer...    



...para querer...



  ...um abraço...


domingo, 19 de junho de 2011

Doenças



Muitas doenças que as pessoas têm são poemas presos
abscessos tumores nódulos pedras são palavras
calcificadas
poemas sem vazão
mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido poema
pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra presa
palavra boa é palavra líquida
escorrendo em estado de lágrima
lágrima é dor derretida
dor endurecida é tumor
lágrima é alegria derretida
alegria endurecida é tumor
lágrima é raiva derretida
raiva endurecida é tumor
lágrima é pessoa derretida
pessoa endurecida é tumor
tempo endurecido é tumor
tempo derretido é poema
palavra suor é melhor do que palavra cravo
que é melhor do que palavra catarro
que é melhor do que palavra bílis
que é melhor do que palavra ferida
que é melhor do que palavra nódulo
que nem chega perto da palavra tumores internos
palavra lágrima é melhor
palavra é melhor
é melhor poema
 
Viviane Mosé

Confira:

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Uma flor...


Há algum tempo escrevi sobre a beleza de ver flores e amizades brotarem de forma inesperada.
Hoje ganhei uma bela flor. Com suas pétalas costuradas a mão e um doce perfume de canela. 
Ela é uma dessas flores que brotou de forma inesperada, sem ter sido planejada. 
Mas uma coisa que venho percebendo é que embora não tenha plantado essas flores de próposito, é preciso cuidar delas, para que cresçam e se tornem cada dia mais belas. Não por obrigação, mas porque vale a pena. Porque uma das mais belas coisas da vida é ver um belo jardim, com as mais variadas flores. Com as cores, os cheiros e aparência das mais diversas. Um jardim que se transforma a medida do tempo, com a mudança das estações, com a maneira como o sol o toca ou como a chuva o rega. Mas que se bem tratado, se cuidado com carinho permanece sempre vivo e resplendoroso.
Hoje, ganhei um flor, feita pelas mãos de um moça de sorriso bonito. Na verdade, essa flor é um brotinho que nasceu de um outra flor, que tem sido bem cuidada, tem crescido e florescido cada dia mais. 
Como já disse noutra ocasião há maravilha no inesperado, mas também há uma incrível beleza em se cultivar o que se ganhou inesperadamente, para que possa durar.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Só uma palavrinha...

Ando com uma saudadezinha de escrever,
mas estou sem inspiração.
Não que não tenham havido grandes tristezas,
e alegrias maiores ainda.
Só que nada ainda encontrou o pouso certo,
pra fazer ninho,
tranbordar o peito e encher a cabeça...
Nesses dias há apenas a delícia de estar
com os amigos...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Isto - Fernando Pessoa


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

s. d.

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995): 236.

1ª publ. in Presença , nº 38. Coimbra: Abr. 1933.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Escrever

Por que é preciso publicisar?  Por que é preciso tornar novamente coletivo?
Essas questões ficam ressoando durante e ainda depois do Limiar. E elas trazem a sensação de que para pensar nisso é preciso pensar na experiência de escrever. É preciso pensar o que leva alguém a ter que escrever. Penso no meu processo de escrita. Não é só sentar e escrever. Quando escrevo? Quando algo transborda. Mas o que transborda? Uma intensidade, um afeto, que se torna grande e não cabe mais só em mim. No entanto, esse afeto, essa intensidade não é desde o início meu. Ele é um fora que me habita. É um caso que “pega”, uma situação que ocorre, é a vida no seu processo, que me atravessa, me afeta,  pega, me cria. E me criando vai formando esse “dentro”, onde recebe mais vida, mais afeto e assim por diante. Só que chega um momento que todo esse movimento, toda essa intensidade parece não caber mais. Paradoxalmente essa intensidade começa a parecer que é muita abertura, e dá a sensação de que se está sozinho diante disso tudo. É preciso falar, pôr em palavras para que algum outro as receba. Esse outro não precisa ser identificado, especificado. Pôr em palavras é endereçar, para que não se esvazie, mas para que também não se estoure. É não ficar sozinho com essa intensidade tão grande. É sentir que alguém também pode sentir o mesmo.
Junto com isso ainda aparece a questão da possibilidade de ao ler Pessoa colar com o Eu vazio ou com o Eu-plano-multidão. E última a supervisão do Gira, em que falei do at fica retornando na memória. Mas por quê? As sensações que retornam dessa supervisão são a necessidade de ter alguém que sentisse o mesmo que eu, e a outra que era anterior a essa, a de estar entorpecida. Parece para mim que essas duas sensações se aproximam dessas questões acima colocadas.
Diante de tamanha intensidade, uma saída possível é se entorpecer, para não ter que sentir esse tanto. E aí a quando vem a pergunta: “o que você está sentindo?”, para qual a única resposta só parece poder ser nada, um vazio. E nesse caso, não dá mesmo para falar, nem escrever, nem pensar. Porque o que move tudo isso está bloqueado, que é o sentir.
Outra saída possível é topar sentir as intensidades, é encarar se colocar frente a uma abertura sem-fim. Mas aí não dá pra encarar isso sozinho, sabe? Por isso essa sensação de que é preciso ter alguém que entenda o que estou sentindo, que sinta junto comigo. Falar em supervisão, procurar terapia, escrever... Pra dizer dessa intensidade, passá-la, transmiti-la de alguma forma, fazer esse contágio, pra não se estar só. Para não parar o movimento dessas forças em si mesmo, tomando tudo pra si, dar passagem, ser canal... Devolver pro coletivo o tanto que ele nos deu...
[continua... ou não...]