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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Desejos

Quero cadeira de balanço
para sentar e ninar os sonhos
como quem nina criança nos braços
embalada pela voz de serena canção

Quero rede na varanda
para dar pouso à esperança
como quem deita e descança
acalentada pela 
brisa de verão

Quero água de cachoeira
para levar embora as tristezas
como quem brinca de ser criança
mergulhando em ribeirão

Quero perfume de flores pela casa
para adoçar a alma
como quem colhe a beleza
de um jardim

Quero a lua banhada em prata
para iluminar o caminho
como quem acende lampião
na escuridão

Quero escrever belo poema
para encotrar um sorriso
como quem sabe que é preciso
dizer mais do sentir

Quero como quem deseja
a vida
para experimentar de cada dia
sua porção de alegria
e  se puder, sempre mais...
...

...


Escrito numa sala vazia,
ainda que cheia de móveis que muito ouvem,
mas insistem em não contar 
suas histórias...

Escrito numa sala sem janelas,
onde o vento não tem passagem,
mas existe na vontade
dos que sonham com sua visita...

Escrito num cenário
feito para propagar saúde,
mas que tem suspiro de 
tristeza, desamparo e cansaço...

Escrito numa votade 
de poesia, 
de beleza,
de criação...


sábado, 24 de dezembro de 2011

Da passagem do ano


Nessa época paramos para pensar em como foi o ano que passou e começamos a planejar o ano que virá... Aproveitando esse clima compartilho as belas palavras de Viviane Mosé, que me foram dadas de presente, e que presenteio quem andar por aqui...

Vida e tempo (Viviane Mosé)

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?


o tempo andou riscando meu rosto

com uma navalha fina


sem raiva nem rancor

o tempo riscou meu rosto

com calma

 
(eu parei de lutar contra o tempo

ando exercendo instantes

acho que ganhei presença)

 

acho que a vida anda passando a mão em mim.

a vida anda passando a mão em mim.

acho que a vida anda passando.

a vida anda passando.

acho que a vida anda.

a vida anda em mim.

acho que há vida em mim.

a vida em mim anda passando.

acho que a vida anda passando a mão em mim


 e por falar em sexo quem anda me comendo

é o tempo

na verdade faz tempo mas eu escondia

porque ele me pegava à força e por trás

 um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo

se você tem que me comer

que seja com o meu consentimento

e me olhando nos olhos


acho que ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando

domingo, 30 de outubro de 2011

Da distância




Eu queria que você chegasse perto
Queria teu toque
Teu cheiro
Teu sabor
Queria tuas mãos
Teus olhos
Teus lábios
Queria te ter por inteiro
Pra me entregar por inteiro
Sem medo
Sem culpa
Sem dor
Por que tem que ser difícil?
Por que parece impossível?
Vale esperar por tua palavra certa
Cabe dar a minha resposta
Ainda que errada
Incerta
Errante
?
No certo ou errado
No faço ou não faço
Perde-se tanto tempo
Tempo que não se conta pelas horas
Mas pela medida do que se sente
A cada pulsar
Medo de jogar-se
Medo de ficar onde se está
Por onde anda aquele caminho
Que traçado já estava
Do início até o fim?
Como é teu rosto
Teu corpo
Tua voz?
Verdade feita
Dos pedaços do que não
Pode ser mais do que
Ilusão
Queria entregar-me a ti
De corpo
Alma
E o que mais for
Da distância em que habito
Chegar ao teu lugar
Não mais barreiras
Não mais medos
Não mais
Teu rosto construído
Nos detalhes da vida
Ganhando finalmente cor
Teu corpo
Contorno
Prum rio que corre
Sem direção
De onde vem?
Onde vai dar
Pra nadar?

E no silêncio
Na dúvida
Ser tua
Poderia bastar
Mas não basta
Não cessa
Não para de transbordar
Ser tua
Completamente
Deveria calar
...
Queria que chegasse perto
Desse o teu toque
Teu sorriso
Tua voz
Mas fica a sombra
O rosto sem face
Um brilho que é disfarce
Você não está
Queria poder tocar-te
Com o poder do
Teu toque em mim

terça-feira, 5 de julho de 2011

Palavras desenhadas

 

O desenho pediu para virar palavra
Não disse qual
Só insitia a brancura do papel
Para que fosse preenchida por letras
A folha de desenho fez-se papel de carta
Carta para quem?
Carta de quem?
Num espaço onde o tempo que se sente
É diferente do relógio
Onde linhas bem traçadas desenham 
Um corpo possível
Contorno que muda constantemente
Mas que sempre insiste em arregalar os olhos
Testemunhando um espanto com a vida
O dizer tantas vezes torna-se sem sentido
Pois o que é sentido é sempre muito
Um render-se constante diante do que
Não se sabe como lidar
No papel que já fala tanto
O desenho pede para virar palavra
Escrita silenciosa nascida do eco
De se estar em companhia.

domingo, 19 de junho de 2011

Doenças



Muitas doenças que as pessoas têm são poemas presos
abscessos tumores nódulos pedras são palavras
calcificadas
poemas sem vazão
mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido poema
pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra presa
palavra boa é palavra líquida
escorrendo em estado de lágrima
lágrima é dor derretida
dor endurecida é tumor
lágrima é alegria derretida
alegria endurecida é tumor
lágrima é raiva derretida
raiva endurecida é tumor
lágrima é pessoa derretida
pessoa endurecida é tumor
tempo endurecido é tumor
tempo derretido é poema
palavra suor é melhor do que palavra cravo
que é melhor do que palavra catarro
que é melhor do que palavra bílis
que é melhor do que palavra ferida
que é melhor do que palavra nódulo
que nem chega perto da palavra tumores internos
palavra lágrima é melhor
palavra é melhor
é melhor poema
 
Viviane Mosé

Confira:

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Isto - Fernando Pessoa


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

s. d.

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995): 236.

1ª publ. in Presença , nº 38. Coimbra: Abr. 1933.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Para 2011...


Receita de Ano Novo
 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ver,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra
birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta ou recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade



Amor Pra Recomeçar 

Composição: Frejat/Mauricio Barros/Mauro Sta. Cecília

 
Eu te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade tem
Prazer e medo...

E com os que erram
Feio e bastante
Que você consiga
Ser tolerante...

Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar...

Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um
Você possa confiar
E que tenha até
Inimigos
Prá você não deixar
De duvidar...

Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar...

Eu desejo!
Que você ganhe dinheiro
Pois é preciso
Viver também
E que você diga a ele
Pelo menos uma vez
Quem é mesmo
O dono de quem...

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar...

Eu desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar
Prá recomeçar...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O Que Será (À Flor da Pele)



Chico Buarque
Voz: Jerônimo Menezes
Piano: Cadu Costa
CD Rearmonizações - Venda Proibida

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta os olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz implorar
O que não tem medida nem nunca terá
O que não tem remédio nem nunca terá
O que não tem receita...

O que será que será,
Que dá dentro da gente que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente, que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso nem nunca terá
O que não tem cansaço nem nunca terá,
O que não tem limite...

O que será que me dá,
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem governo nem nunca terá,
O que não tem juízo...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Às Meninas



Esses dias o passado bateu em minha porta
Chegou com a pose para uma foto
De novo fomos seis mais um

Enquanto caminhava até o altar a noiva levava consigo o futuro
Naqueles instantes que marcavam o presente
Ouvi então os ecos dos planos que encheram nosso passado

Já escrevi sobre o desejo de desfazer nossas brigas
Contei como nossos rumos se separaram
Quando a confiança se trincou

Os planos não saíram exatamente como almejávamos
Nossos caminhos por esses tempos se cruzaram e se afastaram
É possível ouvir o silêncio desses espaços

Foi preciso uma grande surpresa em forma tão pequenina
Com suas mãozinhas e sorrisos gostosos
Para nos chamar de volta

Foi preciso um evento tirado dos sonhos guardados nas gavetas
Um elo invisível nos mantendo juntas sem nem mesmo sabermos
Um fio nos ligando sem nos amarrar

Ela nos olhando enquanto atravessa a igreja ao encontro dele
A pista de dança transformada em ponto de encontro
O bebê dormindo no carrinho enquanto a mãe dança de salto

As coisas mudaram e jamais serão como antes
Não dá pra dizer o que Vem pela frente
Descobri que prefiro viver a imaginar

As meninas agora são mulheres
Mãe, esposas, solteiras
Estudando, se formando, trabalhando

A gente cresceu, virou gente grade
Algumas coisas mudam e outras nunca mudarão
Acho que vai ser sempre assim

Fazia tempo que não escrevia, talvez esteja enferrujada
Queria dizer que senti saudade de nós
Agora estou aqui sem saber como de terminar

Então de novo as lembras transbordam
Talvez não seja mesmo preciso terminar
Porque espero que essa não seja o fim.

02/02/09

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Um sopro de mim


Porque é tão difícil escrever?
São tantas as palavras que se oferecem,
Mas como fazê-las decifrarem os mistérios
Que se escondem dentro de mim?
Como fazer do lápis voz para o silencio
Que ecoa nos cantos da alma?
Enxurrada pronta pra arrebentar uma represa,
Vendaval que anuncia tempestade.
Não sei dizer de mim
Mais do que me permito mostrar.
Temo e anseio por alguém
Que no rio caudaloso da minha vida
Nade contra a correnteza,
Que se ofereça ao mergulho profundo.
As cavernas ocultam segredo
O vulcão que explode no meu peito,
Porque não adormece e me deixa descansar?
Não sei usar os termos certos
Pra mostrar o que cisma em escapar de mim.
Como falar do não dito?
Dá pra explicar o que não se vê,
Mas se sente a cada respiração,
Na garganta que seca de repente,
No tremor do encontro de um olhar?
Não sei se escrevo sobre minhas dores
Ou sobre os sonhos sempre de plantão.
Não sei se digo dos amores
Que nem vem, nem se vão.
Traços rabiscados numa folha
Rimas forçada, perdidas e achadas
No silêncio de uma noite,
Um momento apenas.Um pouco de mim em linhas incertas.

Vento



Quando é que o vento é mais vento?
Quando é vendaval ou quando é brisa de verão?
Ao cantar quando esbarrar nas folhas das árvores ou
Ao encontrar as pás dos moinhos e dar-lhes força para mover as águas?
Quando me torno mais eu?
Ao dizer o que penso sem medir as palavras
Ou ao ficar calada ouvindo confidências de amigos?
Quando coloco em mal traçadas linhas meus sentimentos
Ou ao sonhar com moinhos que recebam meu vento?
O vento é vento seja na tempestade ou no sopro do entardecer.
O mesmo que assobia é o que movimenta.
Vento que vem não sei de onde e se espalha por muitos lugares.
Tem muitos rumos, nenhum pouso e se aprisionado
Morre.
É mais fácil falar do vento do que de quem sou ou quando sou.Às vezes me sinto vento...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

sábado, 17 de julho de 2010

Conversando com Cecília



"Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar
ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinque, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo." (Cecília Meireles)






A poetisa já dizia que na vida
Ou é isto ou aquilo.
Não consigo decidir se isto ou aquilo...
Mas é preciso decidir pelo ou?
Ando preferindo viver o e...
Quero tomar banho de chuva em um dia de sol
E não me importa quem seja a viúva a casar...
Qual o mal de se usar os anéis por cima da luva
Só pra brincar?
Minha cabeça voa enquanto meus pés ficam no chão...
Sinto-me em dois lugares sem duvidar.
E ainda que não esteja em dois lugares,
Nada me impede de estar no limiar...
Posso comprar o doce e guardar o dinheiro que sobrar...
Brinco, estudo, corro e descanso.
Vou vivendo e vivendo e vivendo...
Não estou brigando com as decisões,
É só um elogio ao que me permite adicionar
Ao invés de perder...
Com o tempo a gente vai aprendendo que pode ser
Isto e aquilo e aquilo e também aquele outro....